Acontecimentos dos últimos meses abalaram completamente minha fé. Ela foi destroçada, completamente destruída. Uma fé que se mostrava inquebrantável e firme. Crença que se mostrava presente desde meus quinze anos de idade. Acreditava piamente em nenhuma divindade, em nenhuma entidade superior, em nenhum ser folclórico. No geral, não cultuava deuses ou criaturas míticas, me considerei ateu por longos anos.
Hoje, todavia, não posso afirmar o mesmo. Pelo contrário, tenho que professar minha fé, crença que vem sempre após uma onda de sofrimento, a fé no deus sacana. O deus único e estimável, a divindade suprema e perversa que deu nome e forma a toda a criação pelo motivo único de estar entediado.
Por deus entendo agora, após toda minha via crucis (que não importa), algo que existe somente no tédio eterno. Pois é, deus é a criatura anterior ao tempo que se manifesta no puro tédio. Então, leitor, quando sentir o tédio que não pode descrever de tão absurdo, você estará mais próximo de deus que qualquer outro ser mortal.
Deus queria algo que pudesse diverti-lo. Cria assim o universo e uma infinidade de possibilidades que o distraiam. “Olhe a beleza que essas formas descrevem, deve ser uma das coisas mais lindas que jamais serão criadas”, diz deus referindo-se ao seu universo. Mas, o tédio ainda assim o perseguia. Seu inimigo mortal.
Na verdade, deus (que nem é algo tão poderoso como costumamos imaginar) até gostava de criar, mas via que aquilo não destruía nem espantava o tédio onipresente (este sim o algo mais poderoso do universo). Deus, então, tenta um ato extremo ele destrói aquilo que constrói. E o faz com uma fúria avassaladora, por que descobre que não consegue destruir a entidade suprema que não para de lhe atormentar.
Precisava deus de algo para deixar escapar sua raiva. Então, em um único ato de fúria, destruiu todo seu universo. Já não importava como aquilo funcionaria. Estava novamente entediado.
O tédio até se esvai por alguns momentos enquanto qualquer criatura viva destrói algo, é a destruição o ápice de catarse que um ser vivo possa ter. Mas, toda catarse é instantânea, não dura mais que algum tempo.
Todavia, deus vê que a destruição era boa e começa a fazer dela um prazer. “Opa!”, pensa deus, “isso é bom”. Deus começa, então, a criar e destruir em ciclos para que o prazer nunca acabasse. Entretanto, também era falha tal fórmula, logo o tédio se abateu novamente.
O tédio aparece sempre em ciclos não existindo situação à qual inescape. Tudo tende a ele. E Sua presença é ameaça mais constante que a morte. Talvez a morte seja menos cruel, quando ela chega não temos mais sua consciência. Já o tédio é puramente percebido.
Como acabar com tal tédio era a única coisa em que deus pensava e isso até o manteve ocupado, sem que percebesse. Mas, em algum momento, grandes ideias sempre chegam. Principalmente se nos dedicarmos a elas, com ele não era diferente. Deus se viu entre aquelas que qualquer um com bom senso rejeitaria automaticamente por ser muito pretensiosa. Mas, ele é deus e podia fazê-lo.
“Imagine algo com a mesma capacidade de arbítrio que eu? Algo que pudesse se aproveitar do aleatório e que fosse sujeito as inconstâncias de algo que futuramente chamarão ‘vida’? Pois, darei a eles a capacidade de decidirem sobre tudo, até sobre a própria linguagem. Acho que vai ser divertido”, pensou.
Em todo seu tédio, deus resolveu fazer algo. Se dar a alegria de criar. Criar um mundo, uma linguagem, personagens. Deus resolveu escrever um romance, o romance da vida e da morte. Algo que pudesse forçar seu potencial criador. Deus criou, então, os homens. Estes eram o ápice do ideal de criação.
Claro que deus fez algumas alterações no projeto inicial. Começou por tirar o controle daquilo que chamaram “vida”, mas mantendo o arbítrio daquela raça. Conferindo, assim, a eles a coisa mais frustrante que qualquer ser humano jamais poderia deixar de ter, o total sentimento de impotência perante a contingência. “Com isso, pensou deus, posso sacaneá-los ao extremo. Afinal, eles jamais poderão ter tudo aquilo que querem. E colocá-los dentro dessa roda de desventuras talvez me divirta. Chegará um tempo em que eles existirão aos milhões, talvez aos bilhões, e com isso eu posso gastar meu tempo em algo que não me entedie tanto.”
Não é que nosso amigo deus estava certo? Conferir tamanha capacidade de arbítrio para ser tão limitado foi interessante. Agora, ele poderia ter o que destruir em atos e níveis de possibilidade infinita, a vida e as esperanças humanas.
Colocar padrões de virtudes e defeitos foi certamente uma grande sacada. Eles poderiam julgar a partir disso. Seguiriam padrões morais e até matariam por eles. “Deus! Que grande sacada eu tive”, deus pensou. “Já pensou se continuam derivando as coisas por causa do seu tédio, igual a mim? Talvez, eles criem muitas coisas. Ótima ideia! Vou deixá-los vulnerável ao meu velho inimigo também”.
Deus queria, pelo visto, criar algo a sua imagem e semelhança. Ah! Como é cruel. Mas, minimamente genial. Talvez seja isso a genialidade, a capacidade de pensar e colocar em prática boas ideias. E deus tinha tempo e poder para isso.
Deus vê atualmente as coisas correrem. Divertindo-se com tudo, esperando pelo final da história, talvez. Não se contentará provavelmente com tudo, mas esses seres vivos que criou são certamente interessantes. Não durarão para sempre, deus colocou neles uma tendência autodestrutiva e outra autopreservativa para as coisas ficarem mais interessantes ainda. Enquanto isso ele assiste tudo de sua bela morada no eterno. Talvez até o momento em que se canse de novo e resolva destruir tudo novamente porque enganar seu tédio é a única coisa que lhe importa.
2 comentários:
Mas realmente, não há como ser deus sem uma grande dose de vaidade, como suportar o tédio da eternidade e do poder supremo sem um bom derramamento de sangue, muito caos e violência generalizada em seu nome, uma satisfação tremenda do ego, quase como jogar civilization e correr pra fazer armas atômicas.
Engraçada forma de expor um deus. Deus é um geneotipo bem complexo.
Ele talvez é o namorado de uma jovem apaixonada que se torna um ser onipotente em uma paixão desenfreada. Deus é talvez o câncer de estômago que alguem ao mesmo tempo que tem medo, tem também admiração por aquilo que tem o poder de matar silenciosamente e muitas vezes dolorosamente. O seu deus também neste caso é uma paixão, amor desenfreado pela destruição e sofrimento e é o medo do amanhã de cada ser humano que sofre de um terrível mal, a dúvida acima mesmo do tédio. Parabéns pela interpretação de um deus.
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